Já tive uma amante, Ele hoje, tardiamente, satisfaz-se com o efeito apaziguador que esse pensamento lhe está a causar. Mesmo nunca tendo gostado da palavra «amante».
Naquela altura, Ela perguntou-lhe: afinal o que somos? Ele não encontrou necessidade alguma para encenar uma hesitação (ou mentir), e respondeu-lhe: somos amigos.
- Eu não ando a foder com os meus amigos. Eu não sinto esse desejo louco de beijar os meus amigos. Eu não quero estar o tempo todo com eles. Eu não traio o meu marido com os meus amigos. Eu sei…já me disseste…desde os teus quinze anos que não te apaixonas, blá, blá, blá…É mais um dos teus disparates entre muitos que costumas dizer (e os dois se riram um ao outro, e Ele tocou-lhe com o dedo indicador na ponta do nariz), enfim…Mas que raio, homem! Diz lá, de uma vez por todas, sê sincero, o que é que eu sou para ti?!
Amanhã será um lindo dia, Havia uma música com essa frase, Ele franze o cenho enquanto espreme o pensamento. Amanhã fará um dia de sol; é o que diz o serviço de meteorologia na tv. Amanhã é segunda-feira 29, e é provável que faça calor. Amanhã, Ele vai ao hospital fazer uma ecografia aos testículos para se certificar de que realmente tem um tumor. Depois, já em Setembro ou Outubro (a meteorologia afirma que este ano o Varão vai prolongar-se), ser-lhe-á feita uma incisão no testículo esquerdo para que se faça a biópsia. Se for maligno, é-lhe extirpado. Quem cantava isso, se não me engano, era o Guilherme Arantes, Ele hoje não tem bem a certeza (de quase nada), mas convenceu-se de que sim; e cantarola repetidas vezes, em voz baixa, Amanhã será um lindo dia/da mais louca alegria que se possa imaginar.
Ela praticamente não tinha nome, porque Ele a tratava sempre por «meu anjo».
- Diz lá, de uma vez por todas, o que é que eu sou para ti?!
- Já te disse meu anjo; és a minha amiga no sentido mais amplo e carinhoso do termo. Decidimos estar juntos nisso; e tudo só tem vindo a acontecer porque temos uma forte cumplicidade um com o outro, temos o nosso pacto de verdade e porque somos essencialmente amigos. E eu adoro essa tua boca tão linda, adoro as diversas expressões dos teus olhos – que mudam de cor conforme o pensamento que estás a ter; adoro a tua pele tão branquinha, tão linda. Adoro-te muito. És a minha amiga.
Agora, passado imenso tempo, Ele pensa nela sem qualquer razão superficial. Pensa que lhe poderia ter dito, naquela altura, Eu amo-te. E, mesmo assim, não lhe teria faltado com verdade alguma. Mas Ele continua a não encontrar um significado definitivo para a palavra «amante». Considera ser uma classificação poluída. Olha-se para si mesmo, na parte posterior do globo ocular, e sussurra como se estivesse a dizer-lhe olhos nos olhos: és a minha amiga linda; o meu anjo. Ambos eram casados e, por isso, configuravam-se amantes e traidores que fornicavam apaixonadamente na casa dele nas tardes de terças e quintas; em todo lado, no sofá da sala, na cadeira do escritório e por diversas vezes na cama de casal. Até já foderam em pé, encostados na parede da cozinha. E depois beberam café de mãos dadas como fazem os namoradinhos sentados à esplanada na praça.
Há uma irrazoável discrepância entre a memória que Ele tem dela e a intensidade de vida que doaram um ao outro sob o clima de uma consciência tácita, mútua, de que «estamos a fazer algo de muito errado a quem nós gostamos». Em abono da verdade, há duas palavras que Ele jamais tolerou: amante e traição. E a memória deles acaba aqui. É curta e densa. Tal como o tempo em que se sentiram verdadeiramente amados e compreendidos. Na casa dele.
Amanhã será um lindo dia, Ele repete a canção e olha sério para uma requisição médica que está jogada no chão da sala, amarrotada. Levanta-se. Sente-se demasiado tempo enredado em pensamentos sobre o passado, mas considera, resignado, que foi assim a ordem natural da vida que decidiu ter. Serve-se de um copo de whisky. Vai à janela. A cidade está quieta. Sopra uma aragem com aroma de fim de Verão. Ele olha para o céu estrelado, e torna a cantar…baixinho, pensando…Amanhã será um lindo dia…
14 comentários:
muito medo do amanhã, no fundo
Bem-vindo, Leo.
Tinha saudades de te ler.
E voltaste com um lindo texto, que toca muitas sensibilidades.
a do/da amante, cuja nome também não gosto, e da traição, que por vezes, nos ultrapassa.
Quanto à relação, entre Ele o o "anjo", é a relação de "não amante" que muitos homens e mulheres vivem: a cumplicidade, o entendimento, o gostar de...São as relações mais verdadeiras. Lamentavelmente, acabam.
"Amanhã será um lindo dia", porque não?
Todos queremos que amanhã chegue e seja um lindo dia, com tumores malignos ou benignos.
Adorei ver-te por aqui.
:) desejo
enfim regressaste, caríssimo.
que bom reencontrá-lo...
O Mandoki de sempre com um aspecto bronzeado. Amanhã será um lindo dia, o amanhã é sempre melhor que o ontem.
Belo texto!
Seguindo...
Eu amei !!.. simplesmente lindo, me fez ter saudades de um amigo, tão amigo, e que me faz tanta falta... beijos
Outro dia li um livro que me fez lembrar de ti, era sobre um professor que seduz uma aluna de quinze anos, e ele a chama de "minha menina linda".
O nome do livro é "Um erro inocente", é da dorothy koomson.
No fim o professor acaba morto, e foi isso que mais me fez lembrar d você, porque eu já perdi as contas das vezes que eu imaginei que te matava.
Grande Mandoki! Um escritor digno de ser reverenciado. Um D'ouro pra você. Abraço
Há coisas que podem ser adiadas, outras não.
Adiar a vida é prolongar a morte.
Nietzsche aprovaria as idéias deste seu texto.
A vida é hoje, o amanhã é niilista.
sinto sua falta, sinto; e torço por você, sempre.
Que saudades que tenho do Mandoki...volta...
Vim por intermedio de Tossan, me desculpe por ainda estar construindo o meu blog sobre Parkinson. Te aguaro qualquer noite. Até lá.
vim deixar-te beijos.......
Um texto de génio!
check my story: http://www.squidoo.com/the-mask2
Postar um comentário