[Madrid, manhã cedo do dia 11 de Março na estação de comboios de Atocha. De um momento para o outro, o céu foi tornando-se encoberto por uma fina camada de nuvens. Deixou de haver pássaros a voar.]
Teresa, Teresa, Teresa…
Eu tinha acabado de sair do Jardim Botânico, quando, num ímpeto, tomei a decisão. Vi-a a atravessar a calle Méndez Álvaro em direcção à estação, e resolvi segui-la de longe. O que me chamou a atenção, e que provavelmente esteve na base inconsciente do meu acto, foi o jeito desenvolto e elegante dos seus gestos a cruzar a rua em diagonal, de uma calçada à outra, fazendo baloiçar as mãos e o cabelo. Olhei para o relógio, eram 7h06. Ao entrar na nave central da estação, ela soergueu vagarosamente a cabeça, contemplando toda a extensão da abóbada em ferro e vidro, tirou a máquina fotográfica da mochila e, como um vulto, pôs-se a caminhar pelo Jardim Tropical. Eu observava-a com uma atenção fixa, quase obsessiva, seguindo-a à distância no espaço entre as palmeiras. O seu corpo magro de formas esguias e angulosas faziam-na mais alta do que realmente era. Sob a luz difusa da manhã, tornava-se mais jovem.
Eram 7h17. Teresa estava em Madrid para fazer a cobertura jornalística das eleições legislativas do dia 14. Apesar das sondagens darem uma vantagem confortável de 6,7 pontos percentuais ao PP, ela estava intuitivamente convencida de que Aznar sairia derrotado nas urnas no próximo domingo. E a sua tese era simples: depois dos falsos arquétipos que fundamentaram a intervenção em directo no Iraque, a política externa já não era um apanágio de consenso entre governos e eleitores. E, ao contrário da América de Bush, a Europa não dispunha do pragmatismo influente de uma elite de neoconservadores judeus capaz de tudo por tudo para, em nome da manutenção da força política do Estado de Israel sobre os árabes, perpetuar as mentiras da guerra.
7h22. Mas, naquele dia, Teresa estava sentada no café a poucos metros do Jardim Tropical de Atocha à espera do comboio regional para Cuenca, previsto sair às 8h20. Há vários meses que ela estava a trabalhar numa grande reportagem de investigação sobre o tráfico de mulheres da América Latina para a indústria do sexo nas dezenas de bordéis de Cuenca, na Ruta del Amor, perto de dois povoados de agricultores. Sentei-me no café exactamente a duas mesas de distância ao lado dela, pedi uma garrafa de água e mantive-me a observá-la em detalhe – o perfil, o contorno do nariz, o cabelo castanho atado num rabo-de-cavalo, os cílios, os seios, os dedos longos das mãos, as unhas bem tratadas, a postura das costas e das coxas espalmadas na cadeira. Pus-me na tentativa de lhe dar ou adivinhar um nome: Teresa.
7h31. Entre as diversas pessoas que estavam na estação, em meio ao barulho mecânico contínuo das máquinas que estavam a chegar e a partir, de súbito, eu e ela, em simultâneo, convergimos os nossos olhares de relance para um pequeno rapaz que surgiu diante de nós a segurar uma mala azul. Logo de seguida, por entre a passagem dos vultos de um transeunte e outro, a criança desapareceu. 7h33. A luz da manhã sobre o grande tecto de vidro da estação tornou-se plúmbea. 7h34. Teresa levantou-se e caminhou em direcção às plataformas de embarque e desembarque. Acendeu um cigarro e olhou com vaguidão ao redor. Segui-a obsessivamente mais ao encalço como se lhe quisesse alcançar, tocar-lhe e dizer-lhe. 7h37:49. Os pássaros silenciaram-se. A massa de ar na atmosfera contraiu-se e, num só instante, tudo se transformou num silêncio em suspenso, incompreensível. 7h38. Primeiro foi a ruptura explosiva do clarão, a perda total do ar e só depois o estrondo das bombas. Fui projectado para o chão durante um tempo indeterminado.
Teresa, Teresa, Teresa…
Eu tinha acabado de sair do Jardim Botânico, quando, num ímpeto, tomei a decisão. Vi-a a atravessar a calle Méndez Álvaro em direcção à estação, e resolvi segui-la de longe. O que me chamou a atenção, e que provavelmente esteve na base inconsciente do meu acto, foi o jeito desenvolto e elegante dos seus gestos a cruzar a rua em diagonal, de uma calçada à outra, fazendo baloiçar as mãos e o cabelo. Olhei para o relógio, eram 7h06. Ao entrar na nave central da estação, ela soergueu vagarosamente a cabeça, contemplando toda a extensão da abóbada em ferro e vidro, tirou a máquina fotográfica da mochila e, como um vulto, pôs-se a caminhar pelo Jardim Tropical. Eu observava-a com uma atenção fixa, quase obsessiva, seguindo-a à distância no espaço entre as palmeiras. O seu corpo magro de formas esguias e angulosas faziam-na mais alta do que realmente era. Sob a luz difusa da manhã, tornava-se mais jovem.
Eram 7h17. Teresa estava em Madrid para fazer a cobertura jornalística das eleições legislativas do dia 14. Apesar das sondagens darem uma vantagem confortável de 6,7 pontos percentuais ao PP, ela estava intuitivamente convencida de que Aznar sairia derrotado nas urnas no próximo domingo. E a sua tese era simples: depois dos falsos arquétipos que fundamentaram a intervenção em directo no Iraque, a política externa já não era um apanágio de consenso entre governos e eleitores. E, ao contrário da América de Bush, a Europa não dispunha do pragmatismo influente de uma elite de neoconservadores judeus capaz de tudo por tudo para, em nome da manutenção da força política do Estado de Israel sobre os árabes, perpetuar as mentiras da guerra.
7h22. Mas, naquele dia, Teresa estava sentada no café a poucos metros do Jardim Tropical de Atocha à espera do comboio regional para Cuenca, previsto sair às 8h20. Há vários meses que ela estava a trabalhar numa grande reportagem de investigação sobre o tráfico de mulheres da América Latina para a indústria do sexo nas dezenas de bordéis de Cuenca, na Ruta del Amor, perto de dois povoados de agricultores. Sentei-me no café exactamente a duas mesas de distância ao lado dela, pedi uma garrafa de água e mantive-me a observá-la em detalhe – o perfil, o contorno do nariz, o cabelo castanho atado num rabo-de-cavalo, os cílios, os seios, os dedos longos das mãos, as unhas bem tratadas, a postura das costas e das coxas espalmadas na cadeira. Pus-me na tentativa de lhe dar ou adivinhar um nome: Teresa.
7h31. Entre as diversas pessoas que estavam na estação, em meio ao barulho mecânico contínuo das máquinas que estavam a chegar e a partir, de súbito, eu e ela, em simultâneo, convergimos os nossos olhares de relance para um pequeno rapaz que surgiu diante de nós a segurar uma mala azul. Logo de seguida, por entre a passagem dos vultos de um transeunte e outro, a criança desapareceu. 7h33. A luz da manhã sobre o grande tecto de vidro da estação tornou-se plúmbea. 7h34. Teresa levantou-se e caminhou em direcção às plataformas de embarque e desembarque. Acendeu um cigarro e olhou com vaguidão ao redor. Segui-a obsessivamente mais ao encalço como se lhe quisesse alcançar, tocar-lhe e dizer-lhe. 7h37:49. Os pássaros silenciaram-se. A massa de ar na atmosfera contraiu-se e, num só instante, tudo se transformou num silêncio em suspenso, incompreensível. 7h38. Primeiro foi a ruptura explosiva do clarão, a perda total do ar e só depois o estrondo das bombas. Fui projectado para o chão durante um tempo indeterminado.
[Entrada no caderno Nº27, 23 de Outubro: o teu fantasma é uma presença lúgubre que atormenta, porque, não sendo tu, transforma-se na invocação permanente do teu nome em mim, em todas as coisas. É um desassossego.]
Levantei-me entre corpos estropiados, membros amputados, sangue, ferro retorcido, fumo, cheiro a enxofre pestilento nos pulmões e a vozearia horrenda dos vivos.
Teresa, Teresa.
Estavas tu diante de mim. Linda. Com o teu cabelo atado em rabo-de-cavalo que me fizera seguir-te como um vulto. Estavas de pé. Viva. Olhando-me com uma expressão terrível de medo. Tinhas o braço esquerdo empapado em sangue. Algo inerte, esbranquiçado e já inumano pendia da tua mão, saindo de dentro da carne esfacelada. Dos teus dedos longos.
Teresa, Teresa.
Estavas tu diante de mim. Linda. Com o teu cabelo atado em rabo-de-cavalo que me fizera seguir-te como um vulto. Estavas de pé. Viva. Olhando-me com uma expressão terrível de medo. Tinhas o braço esquerdo empapado em sangue. Algo inerte, esbranquiçado e já inumano pendia da tua mão, saindo de dentro da carne esfacelada. Dos teus dedos longos.



