domingo, 8 de novembro de 2009

#4 (versão #2)

[Madrid, manhã cedo do dia 11 de Março na estação de comboios de Atocha. De um momento para o outro, o céu foi tornando-se encoberto por uma fina camada de nuvens. Deixou de haver pássaros a voar.]
Teresa, Teresa, Teresa…
Eu tinha acabado de sair do Jardim Botânico, quando, num ímpeto, tomei a decisão. Vi-a a atravessar a calle Méndez Álvaro em direcção à estação, e resolvi segui-la de longe. O que me chamou a atenção, e que provavelmente esteve na base inconsciente do meu acto, foi o jeito desenvolto e elegante dos seus gestos a cruzar a rua em diagonal, de uma calçada à outra, fazendo baloiçar as mãos e o cabelo. Olhei para o relógio, eram 7h06. Ao entrar na nave central da estação, ela soergueu vagarosamente a cabeça, contemplando toda a extensão da abóbada em ferro e vidro, tirou a máquina fotográfica da mochila e, como um vulto, pôs-se a caminhar pelo Jardim Tropical. Eu observava-a com uma atenção fixa, quase obsessiva, seguindo-a à distância no espaço entre as palmeiras. O seu corpo magro de formas esguias e angulosas faziam-na mais alta do que realmente era. Sob a luz difusa da manhã, tornava-se mais jovem.
Eram 7h17. Teresa estava em Madrid para fazer a cobertura jornalística das eleições legislativas do dia 14. Apesar das sondagens darem uma vantagem confortável de 6,7 pontos percentuais ao PP, ela estava intuitivamente convencida de que Aznar sairia derrotado nas urnas no próximo domingo. E a sua tese era simples: depois dos falsos arquétipos que fundamentaram a intervenção em directo no Iraque, a política externa já não era um apanágio de consenso entre governos e eleitores. E, ao contrário da América de Bush, a Europa não dispunha do pragmatismo influente de uma elite de neoconservadores judeus capaz de tudo por tudo para, em nome da manutenção da força política do Estado de Israel sobre os árabes, perpetuar as mentiras da guerra.
7h22. Mas, naquele dia, Teresa estava sentada no café a poucos metros do Jardim Tropical de Atocha à espera do comboio regional para Cuenca, previsto sair às 8h20. Há vários meses que ela estava a trabalhar numa grande reportagem de investigação sobre o tráfico de mulheres da América Latina para a indústria do sexo nas dezenas de bordéis de Cuenca, na Ruta del Amor, perto de dois povoados de agricultores. Sentei-me no café exactamente a duas mesas de distância ao lado dela, pedi uma garrafa de água e mantive-me a observá-la em detalhe – o perfil, o contorno do nariz, o cabelo castanho atado num rabo-de-cavalo, os cílios, os seios, os dedos longos das mãos, as unhas bem tratadas, a postura das costas e das coxas espalmadas na cadeira. Pus-me na tentativa de lhe dar ou adivinhar um nome: Teresa.
7h31. Entre as diversas pessoas que estavam na estação, em meio ao barulho mecânico contínuo das máquinas que estavam a chegar e a partir, de súbito, eu e ela, em simultâneo, convergimos os nossos olhares de relance para um pequeno rapaz que surgiu diante de nós a segurar uma mala azul. Logo de seguida, por entre a passagem dos vultos de um transeunte e outro, a criança desapareceu. 7h33. A luz da manhã sobre o grande tecto de vidro da estação tornou-se plúmbea. 7h34. Teresa levantou-se e caminhou em direcção às plataformas de embarque e desembarque. Acendeu um cigarro e olhou com vaguidão ao redor. Segui-a obsessivamente mais ao encalço como se lhe quisesse alcançar, tocar-lhe e dizer-lhe. 7h37:49. Os pássaros silenciaram-se. A massa de ar na atmosfera contraiu-se e, num só instante, tudo se transformou num silêncio em suspenso, incompreensível. 7h38. Primeiro foi a ruptura explosiva do clarão, a perda total do ar e só depois o estrondo das bombas. Fui projectado para o chão durante um tempo indeterminado.
[Entrada no caderno Nº27, 23 de Outubro: o teu fantasma é uma presença lúgubre que atormenta, porque, não sendo tu, transforma-se na invocação permanente do teu nome em mim, em todas as coisas. É um desassossego.]
Levantei-me entre corpos estropiados, membros amputados, sangue, ferro retorcido, fumo, cheiro a enxofre pestilento nos pulmões e a vozearia horrenda dos vivos.
Teresa, Teresa.
Estavas tu diante de mim. Linda. Com o teu cabelo atado em rabo-de-cavalo que me fizera seguir-te como um vulto. Estavas de pé. Viva. Olhando-me com uma expressão terrível de medo. Tinhas o braço esquerdo empapado em sangue. Algo inerte, esbranquiçado e já inumano pendia da tua mão, saindo de dentro da carne esfacelada. Dos teus dedos longos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

#3 (versão #3)

[Chegou o Inverno. De repente, o relógio digital pendurado na parede deixou de marcar os números. Parou. Ficou sem pilhas ou talvez tenha sido...Há maçãs que se vão apodrecendo em cima da mesa.]
Com a rotina impregnada de desenganos, deixou de haver exactidão e pressa na intenção dos gestos simples – levantar um copo, um garfo, levantar uma veia, a manga da camisa, o papel higiénico ou ir à praça beber café e comprar jornais. Com a chegada fortuita do teu fantasma, o tempo uniformizou-se pelo menor denominador comum de tudo. O tempo mede-se conforme a disposição que temos em aceitá-lo em nós, no seu poder transformador e também ilusório. O tempo tem o mesmo poder físico de uma bomba terrorista – contrai-se subitamente durante a felicidade e depois se expande até ao infinito quando já não se é feliz. O tempo é a principal camuflagem da morte.
[Entrada no caderno Nº31, 13 de Setembro: vieram trazer-me maçãs à porta de casa. Maçãs grandes, importadas da Argentina, das que não gosto. Deixei-as ficar sobre a mesa da sala. Observo-as cada vez mais enegrecidas, engelhadas, a casca opaca e fissurada, estão a mirrar e soltam um cheiro agridoce que atrai as moscas. É a força do tempo.]
É o tempo olhos nos olhos. Nunca me tinha ocorrido que fosse tão clarividente medir o tempo no apodrecimento das coisas úteis e vitais. Observando as maçãs argentinas, não me consigo desprender do horror ao saber que o tempo está regalado de vermes, apodrecendo na antiga matéria orgânica e exuberante do teu corpo. Assim como faz às maçãs. Há instantes da noite em que intuo uma expressão de dor lancinante na fisionomia oculta do vulto. A fúria ígnea de quem observa os que partem sem adeus.
[Vê-se uma sombra alongada na parede.]
Pergunto-te, ó vulto: sentes as dores dos vermes famintos sob a terra? Dói ser osso? Os vultos têm vaidade? Digo-te com desprezo, ó fantasma medonho: não chegas aos calcanhares da Teresa que tu insistes em ser. É inócuo. Mas eu sei o que tu és. És uma nostalgia patética sob a forma de sombra. Saudade do que nunca conseguirás viver. Tu, fantasma dissimulado de anjo taciturno, por um acaso sabes quantos degraus há lá de baixo até aqui à porta?
És um espectro cobarde. Em vez de andares de um lado para o outro, a roçar os rodapés, por que não me encaras nos cornos para eu te ver o rosto descarnado?
[A porta range]
És medíocre. És um fantasma de merda, e eu odeio-te. Ouviste?! Odeio-te!
[O vento sopra contra a janela]
Infame!
[A luz bruxuleia em caleidoscópio]
Teresa, és tu? Diz-me Teresa, és tu? Estás aqui?
[Silêncio]

terça-feira, 3 de novembro de 2009

#2 (versão #1)

[Vê-se a sala exígua, os estores estão cerrados, mas há um feixe de luz que entra oblíquo pela janela até ao chão. O resto são sombras no espaço vazio. Ouve-se o barulho da água a cair. Parece-se com o som da água durante um banho. O som da água sobre um corpo nu. E, de repente, um vulto que atravessa lentamente as sombras da sala.]
Todas as manhãs, durante o banho, fico com a certeza de que te oiço os passos ao longe. Depois da tua ida, emagreci bastante, acho que uns 12 ou 15kgs. Debaixo do duche a escaldar, as minhas mãos ensaboadas parecem tocar um dorso desabituado em outra pele, outros músculos, outros ossos, outros membros. Agora, mais magro, sempre que me movimento, sinto-me instantaneamente com a memória física de quando te segui em Madrid, e isso foi no ano tal, três anos depois de…de nada tem servido o esforço de estabelecer, no tempo e no espaço, uma relação razoavelmente inteligível dos factos. Sobrevivemos a Madrid através de um milagre, e isso é, para mim, o estado suficiente e imutável do facto. Pensar em demasia uma circunstância é afastarmo-nos ainda mais dela.
Levo as horas perras dos dias sentado ao escuro a escrever, a registar datas e pequenos episódios da tua ausência naqueles cadernos infantis de capa parda, enquanto o teu fantasma se distrai a rondar os cantos da casa. Às vezes, bebo vinho tinto ou gin puro. São poucas as vezes, mas bebo tentando espicaçar alguma manifestação involuntária do riso sobre a carne pálida do meu rosto. Deixei a barba crescer e só me olho ao espelho duas vezes ao dia. Sobretudo, depois que te descobri o engodo.
[Entrada no caderno de capa parda Nº23, 6 de Junho: Tu não me enganas. Ontem, de propósito, deixei o livro do Yeats aberto na página do poema To a Child Dancing in the Wind. Depois, fechei cuidadosamente todas as janelas da casa com os estores cerrados e as luzes apagadas. Na cama, de olhos abertos para o tecto, fui ouvindo os teus ruídos taciturnos a aproximarem-se. Tu não me enganas, ó mulher! És um fantasma. Porque, no dia seguinte, o livro estava aberto em outra página mais atrás, na do poema O Do Not Love Too Long. E na página do poema estava o teu hálito.]
Agora diz-me: é para rir ou não, malévola? Tu, com a tua ida sem regresso, decidiste por ficar evolada nas sombras que moldam o ritmo prolongado da noite. Tornaste-te, uma vez mais, a minha obsessão. Intangível. Inominável. Porque os vultos não têm nome. Os vultos são parasitas da morte que se alimentam de restos. Por isso, recuso-me a chamar Teresa a uma percepção de penumbras que se agitam ou dançam só porque insistem em corromper os vestígios que deixaste em mim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

#1 (versão revista, 4/XI)

[Adivinha-se que seja um apartamento de poucas divisões. Pelo barulho que vem lá de fora, é provável que esteja no centro da cidade. Tem um sofá, uma mesa, duas cadeiras, um relógio digital na parede, alguns livros em cima da mesa e das cadeiras. E só. O resto vai acontecendo através da interrupção do silêncio.]
Depois da tua ida, ganhei assim do nada o hábito compulsivo dos gestos e das acções insignificantes, do tipo procurar nas prateleiras dos mercados sardinhas em lata que sejam de Peniche ou contar os degraus do prédio. São 60 até ao nosso andar. Nesse dia, o 28 do mês passado, entrei em casa com a pressa feliz de dizer-te, chamar-te alto pelo teu nome, Sabes que lá de baixo até cá acima temos 60 degraus. Não achas um número impressionante. São 20 por andar, são 6 pisos, serão de facto 120 até ao último. Não achas impressionante. Nesse mesmo dia, como já não estavas, sentei-me, peguei na caneta e resolvi escrever-te um bilhete dizendo, Temos 60 degraus. Sinto-me desinibido quando te escrevo, sinto as hipóteses de outras dimensões prontas para acontecer. Mas a tua ida tem sido um autêntico disparate, um terrível absurdo que perscruta o vazio que deixaste ficar cá em casa. Tenho sede, assola-me o pânico do nada. À noite, quando a noite já está completamente devorada pela madrugada, levanto-me para beber água e sinto a envolvência desse medo na medula, o calafrio, de encontrar-me contigo na escuridão que deixaste ficar cá em casa depois da tua ida. Esbarrar-me não contigo, mas com o teu vulto. Ando sorrateiro pelos vazios da casa e pressinto-te que estás, que de um momento para o outro tocas-me no ombro por trás; não tu, mas o fantasma que se travestiu igual às tuas formas depois de teres ido.
No dia 7 de Maio, o telefone tocou, não se limitando apenas a tocar, mas a insistir,
[Voz de mulher jovem ao telefone]: Bom dia, é possível falar com a dona Teresa Vasconcelos Duarte?
[Pausa breve]: Não, não é, Eu respondi-lhe por fim. Mas a insistência tem sempre um cheirinho à estupidez, não achas?!
[Outra pausa, menos breve, depois da insistência ao telefone]: Não, não é possível, minha filha. Não é possível porque a dona Teresa Vas-con-ce-los Du-ar-te não está nem hoje nem nunca mais, ouviste? Cabra estúpida!
E, nesse dia 7, foi a primeira vez que pronunciei aos meus ouvidos o teu nome Teresa após a tua ida. O teu nome tornou-se tão insubstancial como um vulto - tornou-se uma errância. Descobri que o teu nome tinha um significado além dos limites geométricos do teu próprio corpo. O teu nome Teresa era o nome oculto das nossas coisas à volta. Depois da tua ida, o mundo se fez mais anónimo, Sabias.
Ouviste? Cabra estúpida!