sábado, 12 de janeiro de 2013

#1
“A morte é um processo sorrateiro. Que não tem pressa e não se anuncia até ao episódio final. A morte é one shot. Mas cria vínculos.”
    Lucius tem o hábito, pouco regular, de escrever frases soltas em caderninhos, onde ele cria silogismos que lhe vão dando sentido à vida. Algo do tipo,
    “A morte cria vínculos. A morte vai saltitando de uma morte para a outra, porque a morte tem vida própria.”
    Lucius já estava tempo suficiente no estrangeiro, quando recebera a notícia da morte do seu avô paterno. Quem lhe telefonou foi a mãe, dizendo-lhe:
- o teu avô morreu
- qual avô?
- o pai do teu pai
    De seguida, desligou o telefone e ficou a pensar. O avô chamava-se João Otto Strauch. E a recordação mais antiga que Lucius tinha dele era a vergonha. O velho Strauch era um homem das ruas; vendia laranjas descascadas e lâminas de barbear à frente da estação das barcas. E também engraxava sapatos. Certo dia, em criança, Lucius estava a passear de mãos dadas com o seu pai na cidade. E, de súbito, ele reconheceu a curvatura das costas do avô ajoelhado na calçada a engraxar os sapatos a um homem que, ao de longe, e do campo de visão de uma criança, só era possível vê-lo dos joelhos para baixo. Acabado o engraxamento, o homem levantou-se, aconchegou a bainha das calças sobre os sapatos reluzentes, e estendeu a mão ao velho Strauch para o pagar. Nesse preciso instante, uma das moedas fugiu-lhe das mãos. O homem ainda fez tenção de se abaixar para repor alguma dignidade ao acto, mas o velho Strauch, subserviente, já estava de gatas na rua, em pleno centro da cidade, à procura da moeda na sujidade do chão.
    Um velho de cabelos brancos e olhos azuis opacos, esbugalhados de susto – como um peixe esvaindo-se num anzol.  
    Muitos anos depois, o rosto da criança ainda se contrai de vergonha. E Lucius sente-se fatalmente denegrido, um fel de derrota que se lhe esmaga na boca. Ele tem ódio. Não se sente responsável por ser membro da família Strauch.